É sinal de felicidade, com a chegada do verão, aparecer-nos um cinema que se faz do teatro interior crente no amor. Materialists (2025), ou a infantil tradução para português do título – O Match Perfeito -, que tão bem alimentou a crença de que a comédia romântica, como a conhecemos um dia, estava de volta ao grande ecrã, provou-se desde logo inepto em substância, forma e energia. Mas não desistimos. A Vida Luminosa (2025) rapidamente o obliterou com o seu coro de vozes, encontros sexuais primaveris e muita ternura à mistura. Logo de seguida, o regresso de Jacques Rozier às salas, um cronista do verão, só intensificou e fez o sentimento perdurar. Só faltava então Emmanuel Mouret para fazer deste um verão cinemático sobre abraçar o prazer mais espontâneo e puro de uma vida: cair no amor.

Trois Amies (Três Amigas, 2024), o seu mais recente filme, revê o mestre do laissez-faire do amor, e sua alegre e irónica verbosidade, ou não seria este o território da comédia francesa de costumes burgueses, a transbordar de jogos sexuais. Depois de cairmos na gramática do amor, em todo o seu lustro e entrega emocional, em Les Choses qu’on dit, les choses qu’on fait (As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos, 2020), até à data, possivelmente o filme mais encantador do realizador, e Chronique d’une liaison passagère (Diário de um Romance Passageiro, 2022), Trois Amies é um filme de caos organizado. Não tanto uma comédia de enganos como uma comédia de superfícies que se entrançam entre as suas várias personagens, apoiado num discurso que se divide, ou entre o conformismo de uma relação amorosa ancorada por um desejo de afastar o amor apaixonado, estado emocional que não se dá à feitura diária da vida e controla a agência do apaixonado. Ou na queda absoluta e avassaladora nele, que acontece de uma só vez e coloca toda a vida em suspensão, sem ter como ser amparada, e à procura de ser correspondida.
A sua generalizada mordida cítrica-açucarada, que nunca assenta no concreto e prefere deambular por palavras e acontecimentos que nunca se dão ao seu (possível) relevo, revela um filme que inspira adoração, mas que se prova difícil de amar.
No seu centro está a cidade de Lyon como pano de fundo e três amigas, professoras do ensino básico (uma deles presentemente desempregada), duas delas casadas e uma solteira, que perdidas, tal é o estado normal das coisas no que diz respeito ao amor, irão fazer um percurso em direcção à queda nele, algo que só pode ser compreendido com exactidão de forma poética, tal é o seu fervor. O mundo de Emmanuel Mouret é um de meet cutes, de primeiros olhares definidores, do destino marcado por um toque, um sorriso. Nele, ninguém está imune ao cruzamento. Nele, ninguém pára de procurar, mesmo que inconscientemente. E, no caso do encontro, o contexto é ignorado. Não há como não nos submetermos ao desejo. Depois de Joan (India Hair) confessar à amiga Alice (Camille Cottin) de que já não ama o marido Victor (Vincent Macaigne), Alice tenta sossegá-la, abrindo a sua intimidade com o marido Eric (Grégoire Ludig), por quem diz não estar apaixonada. Diz-lhe haver mais sobriedade numa relação assim, onde não tem que se submeter a ímpetos obsessivos, de uma dependência exterior a ela mesma. Enquanto isto, a amiga Rebecca (Sara Forestier), que se tem distanciado nos últimos tempos, namora com um homem casado, escondendo que este é nada mais do que Eric.
Seguindo o mesmo brilho comunicativo e doce que se espelha na estética do desenrolar das relações amorosas de Eric Rohmer, Woody Allen ou até Ernst Lubitsch, este mais recente filme do cineasta francês, estreado mundialmente na competição do Festival de Veneza o ano passado, é um filme que arrisca. A começar pelo uso da narração, controverso entre argumentistas (Mouret co-escreveu o argumento com a realizadora Carmen Leroi), a sua generalizada mordida cítrica-açucarada, que nunca assenta no concreto e prefere deambular por palavras e acontecimentos que nunca se dão ao seu (possível) relevo, revela um filme que inspira adoração, mas que se prova difícil de amar. Quer ser cinema-estudo de personagens, e são muitas as que entram e saem das vidas destas três mulheres que vamos tentando conhecer, mas tem dificuldade em superar o evidente. Acabamos por só encontrar o bonito mas vago, e o sardónico, que muitas vezes se prova irrelevante. Sob a sombra de um apaixonado e dedicado parceiro como Victor, o mundo de Trois Amies é suportado por arquétipos, personagens estereotipadas o suficiente para darem apenas cara a sentimentos e preocupações às quais Mouret quer dar palco. Como se de uma fragrância se tratasse, as notas superiores que lhe atribuem um efeito prolongado são tão frescas quanto leves. Nunca chegam a ser suficientemente corpóreas. E se existe algum peso que possa fazer do flutuante Trois Amies assentar num terreno mais emocionalmente físico, este advém da mágoa de Victor, a típica personagem que oferecem a Macaigne com a sua afeição exagerada, homem carente que se torna a presença espiritual que encaminha o filme para onde este deve ir.

Pelas mesmas teias de amores e desamores, fidelidade e traição, pelas quais Mouret é conhecido, a marcha mantém-se sublime e arredondada, com a passagem do tempo a dar-se sem bordas ou qualquer acentuação narrativa. Nunca saímos da mesma nuvem de questionamento, mas o tempo passa por aquelas personagens, em direcção a um reconhecimento mais amplo do ser, ainda que a leveza do toque nesta última obra se revele mais frágil do que habitualmente graciosa. O mesmo se pode dizer das rajadas arrebatadoras que noutros filmes faziam do ecrã e das personagens reféns. É um filme perfumado, sim, mas escasso em música. O humor é seco, inconsequente. Ao contrário da agudeza cáustica de Woody Allen, com particular ênfase em Hannah and Her Sisters (Ana e as suas Irmãs, 1986) com o qual Trois Amies encontra fáceis comparações, a realização de Mouret é calculada, expectável. A natureza do desejo é desenhada, mas não lhe encontramos impulso emocional.
Recentemente, numa entrevista a Oliver Père para a Arte.tv, Mouret confessou que não sabia como realizar cenas de nudez incluindo as sexuais, isto porque não tem como as fazer de “forma a preservar o suspense”. “Eu gosto do suspense, e por suspense falo de um jogo de espera. É o acto do estabelecimento de algo que se confirmará ou não mais tarde.”, diz fazendo referência ao trabalho de Alfred Hitchcock. Por mais tarde, Mouret refere-se ao encontro com o Eu. Mas até lá, persiste o sentimento de que Joan, Alice e Rebecca não passam de peças, movidas e remexidas dali para aqui e daqui para ali outra vez, que existem meramente para ajudar Mouret a fechar a sua narrativa e transformar a trança, que se vai aligeirando e perdendo intensidade até se libertar da amarra, em laço. Para além do facto de que não existe resolução alimentada pelo conflito (mais satisfatório seria o seu desfecho nesse caso), não aterramos em nenhum lugar curioso o suficiente para justificar a viagem, e Trois Amies acaba por desapontar. Nem uma enorme quantidade de açúcar e charme, nem o contexto estival em que nos chega, consegue mascarar a impressão de que Mouret não vê as suas personagens como pessoas que são, de carne e osso.
★★☆☆☆
